Empreendo porque sou muito mais do que apenas eu.

Empreender não é fácil, e é mais difícil ainda quando se está na adolescência tendo que abrir mão “da melhor fase da vida”, de sair com amigos, assistir séries e filmes para ficar estudando, participando de eventos e empreendendo.

Sempre que tenho que tomar uma decisão sobre carreira versus vida pessoal, eu reflito bastante. Muitas vezes penso e repenso se o que eu estou fazendo é a coisa certa, se vale a pena abrir mão de tanta coisa agora por um futuro melhor incerto, mas logo lembro de que eu não posso tomar essa decisão pensando apenas em mim. Pois eu não sou apenas eu mesma, eu sou toda a minha história, a da minha família e dos meus antepassados. Antes de reclamar do trabalho duro e de sacrifícios eu lembro sempre da minha família.

Os meus pais vêm de origem muito humilde do interior da Paraíba, enfrentaram a seca e a fome. A minha mãe, em especial, é a que tem a história mais marcante. Os pais dela tiveram 10 filhos e desde os 6 anos ela teve que trabalhar. Não apenas com tarefas domésticas, mas também teve que trabalhar no roçado.

Meu avô, homem forte e de descendência indígena, tinha jornadas de trabalho absurdas. Ele trabalhava mais de 18 horas por dia para muitas vezes nem ter o que comer, tirava da boca para dar pros filhos. O dia não tinha fim, virava noites à dentro puxando agave até o dia amanhecer, para já partir pro roçado.

Aos 12 anos, minha mãe teve que sair de casa para trabalhar em outra cidade como babá, pois seus pais já não tinham mais condições de alimentar todos os filhos, assim os mais velhos foram pra rua. Durante toda à adolescência minha mãe trabalhou como babá e apenas aos 19, quando trabalhou na casa de uma professora, aprendeu a ler e escrever.

A boneca

Uma história que sempre me faz chorar é a de quando um grupo de apoio foi ao interior que ela morava distribuir bonecas. O sonho dela era ter uma boneca de verdade, pois até então só tinha tido espiga de milho para brincar. Pediram pra formar uma fila para entregar as bonecas, ela conseguiu ser a primeira e estava muito empolgada, porém os organizadores viram que na frente da fila estavam as crianças mais velhas e no final que estavam as mais novas (na época ela tinha 11 anos), e assim começaram a distribuir do final para o começo da fila.

A penúltima garota ganhou a boneca e finalmente tinha chegado a vez da minha mãe ganhar a sua… mas tinha acabado. Logo na vez dela. A equipe prometeu retornar no ano seguinte e dar primeiro para ela, porém esse ano nunca chegou. A primeira boneca que a minha mãe teve foi com quase 30 anos, quando conheceu meu pai em Natal/RN e deu o nome de Monnaliza (sim, eu mesma).

Eu não tive os melhores brinquedos do mundo, mas tive bons brinquedos, pude também ficar na casa dos meus pais sem ter que trabalhar durante a infância, pude estudar tranquila sabendo que tinha comida em casa, e foi aí que entendi o quão privilegiada eu era. Essa história sempre me fez refletir sobre os privilégios que tive, mesmo os básicos da existência humana, e a valorizar mais cada pequena conquista.

Quando nasci, minha mãe deixou de trabalhar e passou apenas a se dedicar a mim. Abriu mão dos seus sonhos para construir uma família e foi minha maior incentivadora. Mesmo não tendo quase nada de escolaridade, sempre me motivou a estudar e pegou na minha mão para garantir que eu aprendesse tudo direito.

Uma motivação maior que eu

O contato próximo com uma realidade tão diferente da que eu vivia abriu minha mente para a empatia, não apenas com meus familiares mas com a sociedade em geral. E foi daí que veio a vontade de empreender com o social, praticar voluntariado e compartilhar as oportunidades que recebo com os outros.

Diferentemente dos meus pais, eu tive acesso à educação particular desde o início, no ensino fundamental (mesmo sendo escola de bairro), até quando no ensino médio passei no Instituto Federal. Estudar no IFRN nunca tinha sido um sonho meu mas sim da minha mãe, porque eu queria ter a minha empresa e lá só tinham cursos técnicos em áreas de engenharia, mas por conta do destino e muita reza da minha mãe (certeza), quando chegou a época de me inscrever no processo seletivo, tinha acabado de lançar o técnico em Administração de Empresas — que era exatamente o que eu queria.

Entrei no IFRN determinada a aproveitar cada oportunidade que aparecesse na minha frente, pois não só eu fui a primeira da minha casa a ter acesso ao ensino médio como também uma das raras exceções da minha (enorme) família a passar no IF.

Percebi que eu estava ali não só por mim mesma, mas por todas as pessoas da minha família que não tiveram acesso àquelas oportunidades.

Esse pensamento me guia desde então. Desde 2013 todas as minhas ações são movidas pelo desejo de conquistar novos espaços não apenas por mim, mas por toda a minha família. Sempre que penso em desistir, eu lembro que preciso ter a mesma garra, a mesma força dos meus antepassados para continuar — e depois de tudo que já investiram e sacrificaram por mim, desistir não é uma opção. Quem sabe um dia, espero que não muito distante, eu consiga retribuir aos meus pais todo o esforço que eles fizeram por mim e recompensá-los pelas oportunidades que não tiveram.

Gratidão.